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» Internet. Ela merece seu voto de desconfiança.

Como todos nós sabemos, comunicar não é apenas divulgar um fato ou emitir uma opinião, mas também torcer, alterar, modificar fatos e opiniões. Ou seja, mentir.
Isso é tão comum na mídia como nos seres humanos em geral. E a internet, este novo veículo de comunicação que ainda está engatinhando, aprendeu essa lição ainda no berço.
A revista Wired de julho de 2006 traz uma reportagem sobre o pay-per-click, a forma de remuneração que mais cresce na internet hoje em dia. Em 2005, o Google teve uma receita bruta de US$ 6 bilhões com essa forma de propaganda, maior do que qualquer rede de TV americana ou cadeia de jornais. Isso significa que aqueles links escritos em azul que existem há apenas alguns anos estão destinados a se tornar a forma mais importante de marketing nos Estados Unidos, desde que a mentira, que aqui tem o nome técnico de click fraud, não a destrua. O truque mais comum quando uma empresa está pagando o pay-per-click é o seu concorrente ficar clicando o nome da empresa, fazendo-a gastar milhares de acessos que não vão dar nenhum retorno para o negócio.
Agora, nem todas as mentiras significam bilhões de dólares de prejuízo. Em alguns casos, os maiores prejudicados parecem ser apenas os mau-humorados de plantão ou os politicamente corretos. Um bom exemplo é o site bonsaikitten.com que oferece uma nova decoração para o quarto dos filhos ou a sala da madame. Da mesma forma que pinheiros, carvalhos e cipestres na China são submetidos a condições especiais para ficarem anãos pelo resto da vida, o doutor Michael Wong Chan, CEO da bonsaikitten.com promete o mesmo, só que agora com gatinhos. São dele essas palavras:”Até algumas semanas de vida, os ossos de um gatinho ainda não endureceram. Eles são extremamente macios e elásticos. Se você pegar um gatinho com uma semana de vida e jogá-lo no chão, ele vai quicar como uma bola de tênis….” O falso site garante que os gatinhos bonzais podem ter o formato de vasos, copos, jarras, caixas, ou seja, são estátuas-vivas. Assim esses bichanos ganham uma forma única, original e que nunca conseguiriam da mãe natureza. Embora a linguagem seja irônica, engraçada e absolutamente fantástica, chegaram milhares de e-mails de protesto ao site e dizem inclusive que ele sofreu uma investigação do FBI. E tudo por causa de uma boa piada veiculada na internet. No Brasil, também não faltam exemplos de sites que escolheram a mentira e o humor como forma de sobrevivência. Talvez a nossa maior central de boatos eletrônicos seja o Cocadaboa, que se posiciona claramente a favor do trote e que já enganou publicações e jornalistas importantes. Foi o Cocadaboa que durante a votação do plebiscito sobre a proibição de armas de fogo criou a história de um suposto traficante do Rio de nome Xaxim que teria montado um comitê a favor do “sim” dentro da favela em que atuava. O criador do site humorístico, Wagner Martins, gravou 6 minutos de conversa com o falso traficante que logo se espalhou pela rede e chegou a ter mais de 200 mil downloads num único dia. Isto significa que numa votação mais apertada ele poderia ter influenciado no resultado da eleição.
E por falar em eleição, veremos que a internet será cada vez mais usada como veículo de informação. Mas, também, como veículo de desinformação, de mentiras e de boataria. Isso tudo num ano onde a realidade já parece ter superado a ficção com boa parte da Câmara se transformando em personagens sanguessugas, as notícias do mensalão rondando os senhores parlamentares insistentemente além de outras mazelas nacionais. As primeiras escaramuças desta guerra eletrônica já apareceram nos computadores do prefeito carioca Cesar Maia que foi invadido por hackers que enviaram mensagens falsas para milhares de eleitores. E mais: o candidato Sérgio Cabral foi acusado de enriquecimento ilícito num documento que mostrava uma casa que além de não ser sua fica na Califórnia.
Eu adoro a internet e acho que as suas qualidades superam em muito os seus defeitos. E talvez uma destas virtudes seja nos ensinar a sermos mais exigentes com a informação que consumimos. Todo conteúdo deve estar sujeito à dúvida, pois muitas vezes a mentira pode surgir não apenas por má fé, mas também por ignorância, leviandade, falta de atenção, etc. Na verdade, isso acontece com todos os meios de comunicação, seja o rádio, a televisão, o jornal, a revista, etc. O importante é que não aceitemos a informação pronta como verdade absoluta.
Acredito que esse é um excelente exercício, principalmente para as novas gerações que hoje estão se informando e se formando pela internet. Elas devem ser educadas para desconfiar, para procurar a verdade, buscar provas, checar dados e não se empanturrarem gulosamente de junk information. Só assim teremos veículos de comunicação mais competentes e cidadãos mais bem informados. Inclusive, para votarmos de forma mais consciente nessas eleições.

Ruy Lindenberg - Vice-Presidente de Criação da Leo Burnett
 
 
 
 
 
 
GS3 agência de internet em Ribeirão Preto