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» MANIFESTO: Por uma TV Digital Interativa no Brasil
É preciso reconhecer o esforço do governo brasileiro no processo de “transformação” do sistema televisivo para digital interativo. Entretanto, por diversas razões, estamos longe do ideal. É preciso reconhecer o fato de que o Brasil não possui hoje uma real oferta de TV Digital Interativa capaz de atender as espectativas da população. Apesar de termos adotado o padrão japonês com alto grau de interatividade (padrão ISDB-T – Integrated Services Digital Broadcasting – Terrestrial), não temos absolutamente nenhuma interatividade nos canais “ditos digitais” que estão sendo transmitidos por algumas redes de TV brasileiras. Por quê afinal?
Segundo os fabricantes dos receptores de TV Digital, o preço final ao consumidor precisaria estar muito acima dos R$ 150,00 definido pelo governo para que o receptor tivesse “capacidades interativas”. Como não chegaram a um acordo, a solução foi lançar no mercado um receptor de sinais digitais, mas sem recursos de interatividade. O famoso “pé de boi”. E o que ele permite? Somente a recepção de sinais digitais. Redes de TV que antes vinham transmitindo sinais analógicos, agora transmitem digital. Um ganho de qualidade de imagem, só isso. Sim “só” isso porque 99% dos brasileiros não possui televisor capaz de diferenciar um sinal digital de um analógico, mesmo comprando o tal receptor. Não basta sinal digital é preciso ter interatividade. É o mesmo que um website na internet com “texto” em formato digital, mas sem links, isto é, sem “hipertexto”. Não chegamos a lugar nenhum.
O primeiro erro foi não pensar no “modelo de negócios” associado a TV Digital Interativa. Fabricantes de receptores, governo, provedores de conteúdo e agências de publicidade falharam ao adotar modelos de negócios do passado para TV Digital do futuro. Inicialmente, fabricantes de receptores precisam pensar como fabricantes de celulares e reconhecer que não farão dinheiro com a venda de uma “peça de hardware” que ficará obsoleta a cada 12 meses. É preciso adotar um modelo onde o pay-back do receptor não esteja no seu preço final cobrado do consumidor, mas de um percentual sobre os serviços interativos e da publicidade veiculada nos canais da grade de programação. Segundo, é preciso reconhecer que em termos de conteúdo, a TV Digital Interativa está mais próxima do modelo de caótico e inclusivo dos websites de compartilhamento de vídeo da internet (vide YouTube) do que dos atuais programas das redes de TV. A interatividade é mais do que quatro botões coloridos no controle remoto, é uma abertura para um universo de produtos e serviços participativos, tais como: redes sociais, serviços de mensagens instantâneas, games, ensino à distância, que no contexto desta nova TV Digital Interativa está muito além de filmes e programas de auditório com qualidade de imagem digital. Governo e agências de publicidade deveriam juntos, definir um modelo de receita onde anunciantes pagariam pelo uso dos recursos interativos, um modelo já adotado com sucesso pelo Google: milhões de buscas são realizadas gratuitamente pelos internautas todos os dias, mas quem suporta e paga o trabalho dos milhares de servidores do Google e seu “software de busca” são anunciantes e campanhas publicitárias. Não podemos dar um passo para o futuro, fazendo uso de modelos de negócios do passado.
A TV Digital Interativa brasileira não aconteceu, morreu na praia. Infelizmente, continuará sendo uma experiência vivenciada somente pelos assinantes das TVs a satélite e a cabo (pouco mais de 5.5 milhões de brasileiros – fonte teleco). Um serviço para elite, os mais abastados com condições de pagar mensalidades próximas de meio salário mínimo. Os brasileiros continuarão excluídos digitalmente por falta de visão de negócios dos atores envolvidos no processo de introdução desse serviço no Brasil. Resta a esperança de que fabricantes e operadoras de celulares realizem por meio da mobilidade a inclusão digital que a TV Digital Interativa brasileira não conseguiu fazer..
Ricardo Murer é professor, graduado em Computação pela USP, Mestre em Comunicação pela ECA/USP. Especialista em produtos digitais e mídias interativas é CEO da SOFTV.
Ricardo Murer
Site Relacionado: www.softv.com.br
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